A Ciência da Desinformação [vídeo]

Nota: Este post é um roteiro, um conjunto de ideias para a conversa ao vivo no Instagram do Webconcib (https://www.instagram.com/webconcib/) no dia 28 de maio de 2020 às 18h.

Se tiverem interesse em uma visão mais acadêmicas, talvez seja de interesse a palestra “Informação ou desinformação, eis a questão” ou as aulas abertas: “A Desinformação nossa de cada dia” com Elisa Delfini da Udesc e Leonardo Ripoll da BU da UFSC , e “Fake News: Pós-verdadeiro (X) / Falso (X)“. Todos os vídeo estão disponíveis no meu canal de Youtube.

No Webconcib vários colegas já apresentaram as fake news, a desinformação e a pós-verdade muito bem. Para nossa conversa vou mudar um pouco o ponto de vista, pensar numa geral abrangendo outros aspectos da vida.

Live de “A Ciência da Desinformação”

Vamos começar por uma historinha.

Historinha

Essa é a história de um dia na vida da Lady Gaga, uma aluna da disciplina Sociedade da Informação da UFSC.

Lady Gaga acordou com o alarme do relógio para ir para aula. Por enquanto tomava o café da manhã aproveitou para dar uma olhada nas redes sociais e no Youtube para ver uns vídeos aleatórios. Tomou banho escutando em Spotify/Deezer uma lista de músicas recomendadas.

Antes de sair viu que ia chegar tarde, teve que pegar um Uber para não demorar demais, porque o trânsito em Floripa é… denso. A uber aplicou uma tarifa um pouco mais alta, “dinâmica”, “alta demanda” ou uma coisa assim. No caminho o Waze recomendava ir por outro lugar, para não ficar parada no trânsito. Então ela aproveitou para dar uma olhada nas notícias para saber o que estava rolando no Brasil e por quais motivos deveria “sofrer” esse dia.

Depois foi no centro da cidade de ónibus. Tempo para instagram, uns memes por aqui, umas fotos por lá… umas mensagens de whatsapp, memes de política que seu tio enviou no grupo da família… em fim. Essas coisas que a gente faz quando não fazemos nada.

Passeando pelo centro sentiu o cheiro de hambúrguer e pensou, bom, hoje é meu dia de comer um McCoiso.

Depois, foi para a loja de uma conhecida marca roupa de esportes, levava tempo poupando para uns tênis e queria dar uma olhada nas ofertas, seu app caçador de ofertas tinha avisado de algumas promoções e se sentiu com vontade de dar uma olhada. A loja é bem legal, a temperatura dentro é bem agradável, música boa e um cheiro de novo quase tão bom como esse cherinho de livro novo, que todos gostamos tanto.

Passeio pelo centro e um cafezinho bom. Momento ótimo para seguir pelo Twitter os assuntos do dia. Olhada nas hashtags, as tendências do momento, compartilhar um pouco de indignação fazendo uns retweets da dando uns likes e… de volta a casa.

Volta para casa, estudar um pouco e depois uma serie ou um filminho na Netflix para acabar o dia.

E o que tem a ver exatamente com a desinformação?

Se entendemos a desinformação como a “disseminação de informações falsas para enganar as pessoas” (Cambridge Dictionary) então talvez nossa amiga experimentou diferentes tipos durante seu día.

Voltamos para a historinha só que agora com outro olhar.

As mídias sociais escolhem o que vc vai ver. O critério principal é que vc fique o máximo de tempo na plataforma. Mais tempo = Maior benefício econômico para eles. Estudo de facebook demostrando que podem modificar os sentimentos das pessoas em função do que aparecia no seu timeline (ver referências).

Spotify, Deezer… escolhem as músicas que vc escuta. Os motivos? Uber utiliza algumas táticas pouco transparentes. Por exemplo… Se tiver pouca bateria no telefono, aumentam os valores.

O Waze nos leva por aonde “acha melhor”… Pokemon Go foi o maior experimento de deslocamento social da história do ser humano .

Olhar manchetes não é ler notícias. Temos a falsa sensação de estar informados, mas não passamos das manchetes. Não lemos! E quando fazemos muitas vezes são apenas coisas que confirmam o que pensamos. As estatísticas de leitura no Brasil são terríveis.

Os memes são parte fundamental das estratégias de desinformação. Um dos motivos porque auxilia para desumanizar aos “inimigos”. Fomentar o discurso “nós contra eles”.

O cheiro de alguns desses locais que vc sente na rua é de um difusor de odor, um “perfume” que tem esse local para atrair você.

Os hashtags de twitter são promovidos por bots, cyborgs e por pessoas que participam de campanhas favor ou contra um determinado movimento, empresa, partido, pessoa…e tb por simpatizantes. Seus produtos são criados para que vc fique o máximo de tempo na plataforma.

A Netflix apresenta capas diferentes para cada pessoa. O catálogo é impossível de conhecer enteiro, não tem buscador avançado e as obras somem de um dia para outro sem saber. O CEO da companhia falou um tempo atrás que a concorrencia da empresa é Fortnite, pouco tempo depois revelaram que não, o competidor é o tempo de sono da gente.

O título dessa conversa é a Ciência da Desinformação, para chamar a atenção e lembrar que outras áreas do conhecimento estudam fenómenos como a manipulação há muito tempo.

O mundo, como da historinha, está se acomodando para nós fiquemos contentes, tantos os produtos e os serviços. E agora parece que a informação tb fica ao nosso gosto.

Como eu vejo a desinformação hoje?

Sabem quando saímos pela noite e conversamos com alguém que não gostamos muito, mas que depois de uns minutos, começamos a ter uma percepção diferente da pessoa, começamos a vê-la de um jeito mais tolerável, mais agradável, talvez até começamos a gostar dela? Isso é chamado de sedução.

A desinformação parece que esta nos seduzindo, entre outros motivos, porque fala o que queremos ouvir, as vezes no momento certo que precisamos de ouvir isso.

A desinformação tb utiliza nossa raiva, indignação, nossas emoções primárias.. E Coloca você no centro do universo e tudo gira ao redor de vc, se fosse uma crença poderia ter como slogan: “Você é a verdade” (“La garantia soy yo”).

As mídias sociais amplificam e auxiliam essa tarefa.

Quando pensamos em soluções à desinformação não devemos esquecer que os seres humanos somos:

  • Sistemas biológicos complexos. As vezes temos uma ideia de nós mesmos que não é real, os seres humanos não somos máquinas. Na geral funcionamos bastante bem, mas temos numerosas limitações. Por exemplo a percepção sensorial, a gente só consegue ver num espectro de luz, e ouvir dentro de uma frequência. Por exemplo ultra-sons, não são audíveis.
  • Emoções. Somos animais e embora as vezes nem percebemos, temos uma parte emocional que é muito forte e que as vezes ficam no comando, pra bem e para mal.
  • Bagagem cultural/político/social/crenças… e vemos o mundo em função dessa bagagem.
  • Certezas. Diz Helena Matute que o “desejo por narrativas ordenadas que ofereçam certeza e visões simplificadas do mundo pode proporcionar conforto e uma sensação de que a vida é mais manejável.”
  • Vieses/Tendências. Temos muitos vieses cognitivos: entre eles o viés ou tendência de confirmação, e o viés de grupo… Tb Temos opiniões ou atitudes incoerentes que não correspondem com o que pensamos de nós mesmo, por exemplo  “Eu sou a favor da família tradicional mas faço uso da prostituição, tenho filhos com diferentes mulheres e sobre a pensão.. não, não, essa galera que trabalhe”. Uma das mais interessantes é a dissonância cognitiva. O efeito Dunning-Kruguer (superioridade ilusória) e um fenómeno que leva a indivíduos com pouco conhecimentos sobre um assunto a achar que sabem mais do que os expertos nesse assunto. E a sua incompetência impede perceber seus próprios erros.

Para concluir

A desinformação, no meu ponto de vista é um fenómeno complexo que precisa de soluções que provém de diversas áreas.

Cada vez mais a informação está ligada com a nossa identidade.

Já assistiram ao documentário “A Terra É Plana” (Behind the Curve,  disponível na Netflix)? Se assisteremm procurem perceber a importância que tem na vida dessas pessoas esse tipo de ideias. Se alguém atacar seus argumentos, esta atacando a identidade deles.

Trailer de Behind the Curve (A Terra É Plana)

Entendo que só uma formação concreta não parece que seja a solução para o problema, embora seja importante. Saber buscar informação por exemplo, não te da honestidade para admitir que uma fonte e falsa o que vc errou no argumento.

E por último, não esqueçam que a desinformação é uma estratégia criada e organizada por profissionais que explora nossas vulnerabilidades para obter algum tipo de benefício.

Obrigado!

Referências

Vídeo original sem edição: https://www.instagram.com/tv/CAv2LOajHEK/

Sugiro conferir as referências postadas em “A Desinformação nossa de cada dia“.

Kramer, A. D. I., Guillory, J. E., & Hancock, J. T. (2014). Experimental evidence of massivescale emotional contagion through social networks. Proceedings of the National Academy of Sciences, 111(29), 10779–10779. https://doi.org/10.1073/pnas.1412469111

Kruger, J., & Dunning, D. (1999). Unskilled and Unaware of It: How Difficulties in Recognizing One’s Own Incompetence Lead to Inflated Self-Assessments. Journal of Personality and Social Psychology, 77(6), 1121–1134.

Matute, H. (2019). Nuestra mente nos engaña: sesgos y errores cognitivos que todos cometemos. Shackleton

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